13 de setembro de 2017



"Destarte" é o tipo de palavra que só se encontra em gêneros textuais acadêmicos. É aquele tipo de palavra que você lê o tempo todo, mas nunca sabe exatamente o que é, só entende pelo contexto. Ela não tem vida fora dos livros empoeirados. Não sai pra vadiar, não esbarra contigo no role nem disputa espaço pra atravessar a Presidente Vargas às seis da tarde. Fora da circunscrição dos verdadeiros e falsos acadêmicos ela não se cria. É aquela palavra insossa que você ignora por preguiça. Não odeio muitas palavras, mas tá aí uma palavra que não me esforço pra fazer amizade: "destarte". Se passar por mim na rua, mudo de calçada. A propósito, pesquisei no dicionário (ainda arrumo uma briga com quem diz que ele é o pai dos burros!) e "destarte" é advérbio, aquela classe de palavras que guarda parte da sua utilidade em estabelecer nexo de sentido entre elementos diferentes dentro do período. Nesse caso é advérbio conclusivo (ou consecutivo, depende do caso) formado pela contração de "desta" + "arte" (muito mais charmoso, não é verdade?), podendo ser substituído por "dessa maneira" e congêneres (muito mais acessível, não é verdade?) . Também não entendo a concordância em "sentença transitada em julgadO", mas tenho uma boa teoria: a origem provável foi um desvio gramatical de algum jurista oitocentista bem metido a besta. A galera leu, achou diferente e "culto", abrindo, destarte, exceção na norma padrão. Opa, saiu sem querer!

Não sei ao certo o motivo de ter escrito uma divagação morfológico-afetiva acerca de uma palavra, mas acredito ser importante o suficiente para compartilhar com vocês.

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